Insalubridade e periculosidade

Trabalho com inflamável, eletricidade ou como vigilante e não recebo periculosidade: tenho direito aos 30%?

Artur Vitor · OAB/PB 34.525 · · 7 min de leitura

Em regra, sim. Quem trabalha exposto de forma habitual a inflamáveis, explosivos ou energia elétrica, ou atua como vigilante na segurança pessoal ou patrimonial, tem direito ao adicional de periculosidade de 30% sobre o salário-base. O direito existe mesmo que a exposição não dure o dia inteiro. O argumento de que o contato é "eventual" só afasta o adicional quando o contato é realmente fortuito, ou quando é habitual mas dura um tempo extremamente reduzido.

Se a empresa já paga insalubridade, ela não pode simplesmente negar a periculosidade por isso. Os dois adicionais não se somam, mas a escolha do mais vantajoso cabe ao trabalhador. A falta de laudo também não impede a cobrança: na Justiça do Trabalho, a prova é feita por perícia técnica determinada pelo juiz. O retroativo alcança os últimos cinco anos, desde que a ação seja proposta em até dois anos após a saída da empresa.

O que a lei considera trabalho perigoso?

A regra está no artigo 193 da CLT:

São consideradas atividades ou operações perigosas, na forma da regulamentação aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, aquelas que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem risco acentuado em virtude de exposição permanente do trabalhador a: I - inflamáveis, explosivos ou energia elétrica; II - roubos ou outras espécies de violência física nas atividades profissionais de segurança pessoal ou patrimonial.

Art. 193 da CLT

A lista detalhada de atividades e áreas de risco está na NR-16, a norma regulamentadora do Ministério do Trabalho sobre atividades perigosas. É ela que define, por exemplo, o que é área de risco em um posto de combustível ou quais trabalhos com eletricidade dão direito ao adicional. A CLT também garante o adicional a quem trabalha com motocicleta.

Na prática, os casos mais comuns são:

  • Frentista: o TST tem súmula específica (Súmula 39) reconhecendo o direito de quem opera bomba de combustível.
  • Eletricista: quem trabalha em instalações ou equipamentos elétricos energizados, ou próximo deles, conforme a NR-16.
  • Vigilante e segurança patrimonial ou pessoal: o risco aqui é de roubo e violência física. O que conta é a função de proteger pessoas ou patrimônio, não apenas o fato de portar arma.
  • Quem lida com inflamáveis ou explosivos: abastecimento, transporte, armazenamento e manuseio, além de quem trabalha dentro da área de risco definida pela norma.

A empresa diz que meu contato é eventual. Isso tira meu direito?

Depende de como o contato acontece de verdade. A lei fala em "exposição permanente", mas o TST interpretou essa expressão na Súmula 364: tem direito quem fica exposto permanentemente ou de forma intermitente, ou seja, entrando e saindo da situação de risco várias vezes ao longo da jornada.

O adicional só deixa de ser devido em duas situações:

  • quando o contato é eventual, no sentido de fortuito, algo que acontece por acaso e fora da rotina;
  • quando o contato é habitual, mas dura um tempo extremamente reduzido.

Um exemplo: o caixa de uma loja de conveniência que, uma vez por mês, cobre o frentista por alguns minutos tem contato eventual. Já o funcionário que abastece veículos todos os dias, mesmo que divida o turno com outras tarefas, tem contato intermitente. Para ele, o adicional é devido.

A mesma súmula diz que o acordo ou convenção coletiva não pode fixar adicional menor que 30% nem proporcional ao tempo de exposição. Se você recebe "meia periculosidade" com base em norma coletiva, isso merece ser analisado.

Quem decide se o contato é eventual não é a empresa

O que vale é o que acontece na rotina, não o que está escrito na descrição do cargo. Se o perito constatar que você entrava na área de risco todos os dias, a classificação feita pela empresa não prevalece.

Já recebo insalubridade. Posso receber periculosidade também?

Não ao mesmo tempo. A CLT permite que o trabalhador opte pelo adicional de insalubridade em vez do de periculosidade, e a jurisprudência do TST entende que os dois não podem ser acumulados. Mas a escolha é sua, não da empresa.

A diferença entre eles costuma ser grande:

  • Periculosidade: 30% sobre o salário-base, sem somar gratificações, prêmios ou participação nos lucros.
  • Insalubridade: 10%, 20% ou 40%, conforme o grau definido na NR-15. Há discussão sobre a base de cálculo desde a Súmula Vinculante 4 do STF, mas, na prática, o cálculo tem sido feito sobre o salário mínimo até que lei ou norma coletiva defina outra base.

Em muitos casos, a periculosidade é mais vantajosa. Se a empresa paga insalubridade, mas a periculosidade seria maior no seu caso, é possível pedir a diferença na Justiça, descontado o que já foi pago. O pedido não serve para ganhar em dobro. Serve para garantir o adicional correto.

Não tenho laudo. Como provo que trabalhava em área de risco?

Você não precisa ter laudo para entrar com a ação. O artigo 195 da CLT determina que a periculosidade seja caracterizada por perícia de médico do trabalho ou engenheiro do trabalho. Quando o pedido é feito em juízo, o juiz nomeia um perito, que vai até o local, examina a atividade e responde se havia risco nos termos da NR-16.

Ajudam a reforçar o pedido:

  • testemunhas que trabalharam com você e conhecem sua rotina;
  • fotos ou vídeos do local de trabalho e das tarefas;
  • escalas, ordens de serviço e mensagens com instruções da chefia;
  • o PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário), documento que a empresa deve emitir com os riscos a que o trabalhador foi exposto;
  • a ficha de entrega de EPI. O uso de EPI não elimina, por si só, o risco de explosão, choque elétrico ou assalto.

E se o local mudou ou fechou? A jurisprudência admite a perícia em ambiente semelhante, a chamada perícia por similaridade, além do uso de laudos de outros processos com a mesma situação. Também existe uma saída quando a empresa já pagava o adicional e parou de pagar sem que nada mudasse. Pela Súmula 453 do TST, o pagamento espontâneo torna o risco incontroverso, e a perícia pode ser dispensada.

E se eu perder a perícia, vou ter que pagar o perito? A CLT prevê que os honorários do perito ficam com quem perde no ponto analisado. O STF, porém, no julgamento da ADI 5.766, afastou essa cobrança de quem é beneficiário da justiça gratuita. Se você tem direito à gratuidade, essa despesa não deve ser cobrada de você.

Quanto posso receber de retroativo?

Não existe um valor padrão. Tudo depende do seu salário-base, do período trabalhado em risco e do que a perícia constatar. O cálculo segue esta lógica:

  1. Valor mensal: 30% do salário-base. Por exemplo, sobre um salário-base de R$ 2.000, o adicional mensal é de R$ 600. Esse é só o cálculo do percentual legal, não uma estimativa do seu caso.
  2. Período: os meses em que houve exposição, limitados aos últimos cinco anos contados da data da ação.
  3. Reflexos: o adicional pago de forma permanente integra a remuneração. Por isso, repercute em 13º salário, férias com 1/3, FGTS e, conforme a Súmula 132 do TST, no cálculo das horas extras. Se houve demissão, alcança também as verbas rescisórias.

Os valores são corrigidos até o pagamento. Uma análise com base nos seus contracheques mostra o que realmente está em discussão.

Qual é o prazo para cobrar?

A Constituição fixa dois prazos, e os dois contam:

  • Dois anos após a saída da empresa para entrar com a ação. Depois disso, o direito de cobrar se perde.
  • Cinco anos para trás, contados da data em que a ação é proposta. Cada mês que passa sem ação é um mês antigo que sai do cálculo.

Se você ainda está na empresa, pode cobrar mesmo assim, inclusive pedindo que o adicional passe a ser pago dali para frente. Muitos trabalhadores preferem esperar a saída por receio de retaliação. É uma escolha legítima, mas o limite dos cinco anos continua correndo.

A empresa pode parar de pagar a periculosidade?

Só se o risco deixar de existir. A CLT prevê que o direito ao adicional cessa com a eliminação do risco. Isso acontece, por exemplo, quando o trabalhador é transferido para uma função fora da área de risco. Cortar o adicional sem nenhuma mudança real na atividade é irregular. As diferenças podem ser cobradas, e o pagamento anterior serve como prova a seu favor.

Frentistas também costumam ter descontos de diferença de caixa ou de combustível. Se é o seu caso, veja também quando a empresa pode descontar prejuízo do salário.

Como saber se o meu caso se encaixa?

A resposta depende da sua rotina concreta: o que você fazia, onde, com que frequência e por quanto tempo. Reúna contracheques, a carteira de trabalho, o PPP se tiver, e os nomes de colegas que acompanharam seu trabalho. Com esses documentos, é possível avaliar se cabe o pedido de periculosidade, se a insalubridade paga é a opção certa e qual período ainda pode ser cobrado. Saiba mais sobre a atuação do escritório em direito do trabalho.

Perguntas frequentes

Frentista tem direito a adicional de periculosidade?

Sim. O TST tem súmula específica, a Súmula 39, reconhecendo o direito de quem opera bomba de combustível. O adicional é de 30% sobre o salário-base, sem somar gratificações, prêmios ou participação nos lucros.

A empresa pode negar a periculosidade dizendo que o contato com o risco é eventual?

Só se o contato for realmente fortuito, ou habitual mas por tempo extremamente reduzido. Pela Súmula 364 do TST, a exposição intermitente, aquela em que o trabalhador entra na área de risco várias vezes durante a rotina, também dá direito ao adicional. Quem decide, em caso de discussão, é a perícia judicial.

Posso receber insalubridade e periculosidade ao mesmo tempo?

Não. A CLT permite a opção entre os dois, e a jurisprudência do TST não admite a acumulação. A escolha é do trabalhador. Se a periculosidade for mais vantajosa que a insalubridade paga, é possível cobrar a diferença.

Preciso ter laudo para pedir adicional de periculosidade na Justiça?

Não. Quando o pedido é feito em juízo, o juiz nomeia um perito para avaliar o local e a atividade, conforme o artigo 195 da CLT. Testemunhas, fotos, o PPP e outros documentos ajudam a reforçar o pedido.

Até quando posso cobrar a periculosidade atrasada?

A ação deve ser proposta em até dois anos após a saída da empresa. O retroativo alcança os cinco anos anteriores à data da ação, com reflexos em 13º, férias com 1/3, FGTS e horas extras. O valor depende do salário e do período de exposição de cada caso.

Fontes e legislação consultada

Textos oficiais em que este artigo se baseia.

  1. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5.452/1943)arts. 193, 194, 195 e 790-B
  2. Constituição Federal de 1988art. 7º, XXIII e XXIX
  3. TST: Súmulas, Orientações Jurisprudenciais e Precedentes Normativos (compilação oficial)Súmulas 39, 132, 364 e 453
  4. NR-16: Atividades e operações perigosas
  5. NR-15: Atividades e operações insalubres
  6. STF, Súmula Vinculante 4: salário mínimo como indexadorSúmula Vinculante 4
  7. STF, ADI 5.766: honorários e justiça gratuita na Justiça do TrabalhoADI 5.766
  8. Lei 8.213/1991: Planos de Benefícios da Previdência Socialart. 58

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